terça-feira, 21 de abril de 2020

Hábitos saudáveis na quarentena - Parte 3



Na terceira e última parte dos posts sobre hábitos saudáveis na quarentena, vou falar brevemente sobre ansiedade, atividade física e sono. Como falei no primeiro post, estamos passando por um momento de incertezas, então, é difícil levar uma vida 100% normal. Mas pelo menos tentar ter um mínimo de cuidados é essencial. É saúde, é preocupação com você. Vale a pena!

Nas redes sociais, tenho observado as pessoas falando sobre o aumento da ansiedade, o que é absolutamente normal, considerando uma pandemia, não é mesmo? E o problema fica maior quando essa ansiedade passa a ser descontada na comida. Por isso, é necessário compreender o que tem causado isso e reconhecer sinais de fome fisiológica e fome psicológica (ou vontade de comer). 

A fome fisiológica surge de forma gradual, não há desejo por alimentos específicos, pode causar mal estar físico (aquele desconforto no estômago quando começa a "apertar a fome", hehe) e desaparece após comer, pois se você comeu em quantidade adequada, está saciado. Por outro lado, a fome psicológica surge de repente, costuma ser intensa, há desejos por alimentos específicos (a pessoa refere "fome de doce", "fome de pizza" etc) e pode despertar a culpa após comer. Sabe aquela coisa que falam de abrir a  geladeira para pensar? Pois é, muitas vezes você está "só" entediado e não com fome real. Quando achar que está com fome, tente se observar mais com base nessas diferenças: perceber se está com vontade de alimentos específicos ou não, se a sensação aumentou gradualmente etc. Se for fome de verdade, coma, preferencialmente alimentos que te mantenham saciado por mais tempo. Se for a fome psicológica ou vontade de comer algo específico, pode ser que comer o que você está com desejo ajude temporariamente (por exemplo, um pouco de chocolate), porém, o ideal é buscar atividades que te deem prazer, que te deixem concentrado, como forma de amenizar a ansiedade sem descontar na comida de forma exagerada.

Que outras atividades eu posso fazer, nutri? Bom, isso depende do que você gosta e tenho visto  também psicólogos recomendando fortemente atividades. Ou seja, se você não acredita na nutri aqui, leve em conta as recomendações dos colegas psicólogos, hehe! Não estamos falando sobre produtividade, hein? Estamos falando sobre distração, sobre relaxar um pouco! Momentos tão necessários sempre na nossa vida, não só agora! Desenhar, colorir livros, ler, assistir uma série, ouvir música, brincar com seu pet, tomar um sol (mesmo que seja na janela), rever fotos antigas ou mesmo se alongar por alguns minutinhos! Tem tanta coisa que aposto que há algo que te chame a atenção.

Atividade física também entra como uma forma de aliviar a ansiedade e principalmente "não enferrujar" na quarentena, pois por mais que você não fizesse muito exercício antes disso tudo, com certeza tinha gasto energético maior por caminhar para fazer compras, levar o pet para passear ou resolver qualquer outra coisa na rua, né? Para quem já fazia exercício, talvez a intensidade não seja mesma. Eu tenho feito exercícios em casa e têm me ajudado muito a não "pirar".

Não sou educadora física e por isso não posso recomendar e orientar exercícios físicos, mas posso incentivar você a fazer, se você não tiver limitações! Há diversos profissionais postando até mesmo sem custo em suas redes conteúdos para te ajudar nessa fase. Vale procurar. Vou deixar como indicação o canal da Sogipa (um clube esportivo do Rio Grande do Sul) no YouTube, que disponibiliza atividades para todos os gostos: ioga, pilates, lutas, ginástica localizada, treinamento funcional etc. Para acessar, clique aqui.

Por fim, o sono! Um dos pilares para uma vida saudável desde sempre e importantíssimo para imunidade tanto quanto a nossa alimentação e atividade física. Na televisão, já apareceram algumas matérias sobre alterações no nosso dos brasileiros durante a pandemia, o que é até compreensível, ainda mais para quem tem convivido com ansiedade. Já falei sobre esse tema no blog antes e no post está bem explicadinho como criar uma rotina para "educar" seu sono (clique aqui para ler). 

Para complementar, você pode utilizar a fitoterapia como sua aliada para relaxar. Chás como capim-cidreira, maracujá, hortelã, melissa e camomila exercem função calmante e podem ajudar na indução do sono. Neste caso, o ideal é beber à noite, um pouco antes de deitar, se possível usando a erva mesmo, mas os sachês também podem ser usados.

Espero que tenha aproveitado as informações desses posts recentes. Como sempre, a ideia é passar informações com linguagem acessível, que possa atingir diversos públicos, sem tanto termo técnico nos textos. Gostaria de saber de você nos comentários: você tem se sentido muito ansioso? O que te ajuda a relaxar?

P.S.: Assim como nutricionistas têm atendido online durante o isolamento, alguns psicólogos também têm feito isso. Se para você está sendo difícil passar por tudo "sozinho" e não tem com quem falar e se sente à vontade com um profissional, procure ajuda! Especialmente nas redes sociais, como o Instagram, é bem fácil de encontrar psicólogos oferecendo serviços, alguns até gratuitamente!

domingo, 19 de abril de 2020

Hábitos saudáveis na quarentena - Parte 2


Chegamos à segunda parte dos posts sobre hábitos saudáveis na quarentena. Hoje vou falar brevemente sobre imunidade, inflamação e suplementação. Eu espero, de verdade, que todos aqueles que começaram a fazer mudanças positivas agora levem esses hábitos para a vida toda!

Uma alimentação o mais natural possível, com comida de verdade colorida e variada (como arroz, feijão e outras leguminosas, frutas, verduras e legumes etc), costuma dar conta de uma boa imunidade e combate à inflamação, se adequada em quantidade. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda um consumo mínimo diário de pelo menos 400 g (o equivalente a cerca de cinco porções) de frutas e vegetais, exceto batata, batata-doce, mandioca e outros tubérculos. Se você puder, invista nesses itens e se não estiver habituado a comer puros, comece colocando em um bolo (banana, maçã...), em uma panqueca (folhas de couve, espinafre, cenoura...), em sucos, misturados com arroz e por aí vai. Outros alimentos que podem fazer parte da rotina são sementes (chia, linhaça, de abóbora, girassol...) e oleaginosas (castanhas, nozes, amêndoas, pistaches). E tão necessário quanto incluir alimentos nutritivos é EVITAR produtos industrializados, especialmente os ultraprocessados (leia mais sobre o tema clicando aqui).

Nesta época, tem circulado bastante na internet informação sobre alimentos, suplementos e chás para combater o vírus. Até o momento, não existe nada que cure ou nos deixe 100% imunes ao coronavírus. Caso um de nós fique doente, a alimentação saudável prévia pode ajudar para um tratamento melhor, portanto, é importante, sim, cuidar do que se come. Como é um vírus novo, os estudos estão nas fases iniciais. Assim, cuidado com o que você lê por aí, indicando determinadas suplementações, "shots", entre outros, como milagrosos!

Abaixo, cito alguns nutrientes envolvidos no aumento da imunidade e/ou diminuição da inflamação:

-Vitamina A: Aumenta a diferenciação de linfócitos B e T.
Exemplos de alimentos com o nutriente: Mamão, abóbora, cenoura, manga, batata-doce, espinafre, produtos de origem animal como gema de ovo, leite integral e derivados. Os vegetais e frutas alaranjados são fontes de carotenoides, que são convertidos em vitamina A após sua ingestão.

- Vitamina C: Certamente o nutriente mais lembrando quando o assunto é "imunidade". Geralmente as pessoas costumam a associar somente à laranja, mas ela está presente em vários outros alimentos fáceis de encontrar no nosso dia a dia. Dá para variar bastante!
Exemplos de alimentos com o nutriente: Laranja, limão, goiaba, acerola, abacaxi, bergamota, kiwi, caju, morango, mamão, pimentão, tomate, brócolis, rúcula...

- Vitamina E: Ajuda a melhorar a imunidade devido a sua capacidade de aumentar a produção de imunoglobulinas.
Exemplos de alimentos com o nutriente: Oleaginosas, abacate, sementes como as de girassol, gérmen de trigo, vegetais verde escuros, óleos vegetais (não se recomenda o uso em excesso)...

- Zinco: Envolvido nas funções de células que mediam a imunidade inata, afeta a fagocitose e a produção de citocinas, além do crescimento e função dos linfócitos B e T. Também inibe a produção de algumas citocinas pró-inflamatórias.
Exemplos de alimentos com o nutriente: Grãos integrais, oleaginosas, sementes como as de abóbora, vegetais diversos, produtos de origem animal como carnes, ovos, leite e derivados, ostras.

- Selênio: Potencializa nossa imunidade por conta das funções dos linfócitos B, responsáveis pela produção de anticorpos.
Exemplo de alimentos com o nutriente: A fonte mais conhecida é a castanha-do-Brasil (ou do Pará).

- Ômega 3: Diminui principalmente a produção de fator de necrose tumoral alfa (TNF-α) e interleucina 1 (IL-1), que participam do processo inflamatório. Sendo assim, o ômega 3 na alimentação entra com papel de combate à inflamação, que está presente em diversas condições, como câncer e obesidade.
Exemplos de alimentos com o nutriente: Sementes de chia, linhaça, nozes, sardinha, salmão...


Recentemente, algumas publicações, em especial nas redes sociais, têm abordado a vitamina D, que poderia auxiliar no combate ao vírus. Essa vitamina está presente em itens de origem animal como ovos, leite e queijo e também é sintetizada pela exposição solar. Como muitas pessoas se expõem pouco ao sol atualmente, por causa de trabalho/estudo em ambientes fechados ou mesmo por viverem em locais com dias mais frios, pode ocorrer a deficiência de vitamina D e os estudos sobre o tema já têm ocorrido há algum tempo, associando a hipovitaminose D à depressão, obesidade etc. Tem-se recomendado a exposição solar durante a quarentena mesmo que dentro de espaços pequenos como varandas ou em pátios, para quem tiver possibilidade. De fato, um solzinho costuma fazer bem até para o humor saúde mental! Mas repito que o vírus é novo, logo, é necessário fazer estudos mais adequados metodologicamente para fazer uma associação direta de deficiência de vitamina D e coronavírus.

Se mesmo se expondo ao sol você tiver com deficiência de vitamina D, a suplementação será necessária para atingir níveis adequados. Se você não fez exames recentes, não use nenhum tipo de suplemento (seja de vitamina D ou não) por conta própria e busque orientação profissional para saber as quantidades adequadas para você, quando for necessário suplementar! A suplementação de vitamina D, em especial em altas quantidades, pode aumentar a excreção de cálcio na urina e, consequentemente, pode levar ao cálculo renal (as famosas "pedras nos rins"!). Lembre-se que todos os nutrientes são importantes e não existe um isoladamente que seja "salvador" de tudo. Então, neste momento de tantas dúvidas e incertezas, foque no simples e no que está ao seu alcance, sem estratégias mirabolantes e gastos com produtos quiçá desnecessários. Fique em casa, se alimente bem, hidrate-se e lave as mãos!

Você já encontrou informações duvidosas sobre alimentação/suplementação e coronavírus? Conta nos comentários!

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Hábitos saudáveis na quarentena - Parte 1



A atual pandemia do coronavírus, de modo geral, não está sendo fácil para ninguém. Mudanças bruscas de rotina, ter que ficar em casa todos os dias (para aqueles que podem), incertezas sobre quando isso tudo vai passar para podermos sair para passear, se exercitar, visitar os amigos, a família, trabalhar normalmente, tomar sol no parque. Complicado, eu sei. Apesar disso, é importante tentar se manter saudável nesse período com medidas além das de higiene respiratória e de mãos e distanciamento social divulgadas pelos órgãos de saúde.

Nesta primeira parte de uma série de posts, vou escrever de forma simples sobre o que considero adequado em relação à alimentação durante a quarentena, organização para as compras, higienização e como um nutricionista pode te ajudar.

Restrição alimentar? Repense!

Apesar de estarmos tendo um gasto energético menor por conta de menos (ou nenhum para alguns) exercício físico e atividades em geral do dia a dia, não é o momento de fazer grandes restrições na sua alimentação, do tipo começar dieta "low carb". A restrição calórica pode alterar o humor, aumentar a ansiedade (tudo que NÃO queremos durante uma pandemia!) e reduzir a leptina, que é o hormônio responsável pela saciedade. Isso tudo parece levar a um ciclo que foi chamado de "efeito ioiô" em um estudo publicado em 2014 por Strasser, Berger e Fuchs. A figura abaixo, retirada do estudo, mostra que quando você faz a restrição alimentar, pode haver perda de peso, mas diminui os níveis de leptina, diminui o triptofano (aminoácido fundamental para a produção de serotonina, que nos dá sensação de bem-estar), piora o humor, aumenta o desejo por determinados alimentos (craving), aumenta o índice de massa corporal (IMC) e recomeça o ciclo.


Foto: Strasser, Berger e Fuchs (2014)

Esse é um período onde mais precisamos estar fortes e saudáveis para ficarmos mais protegidos (não 100% imunes ao vírus, tá?) e não pensar "somente" em estética. Se antes da quarentena você já seguia um programa alimentar orientado por profissional, converse com ele(a) para ajustes que sejam necessários. Para os que não seguiam nenhum acompanhamento, por favor, sejam sensatos e não saiam excluindo alimentos/grupos alimentares. Como sempre, a moderação é a palavra-chave! Doces ou outras guloseimas eventualmente podem entrar na alimentação, sem problemas! Lembre-se: já não podemos sair de casa e ainda vamos ficar restringindo tudo na alimentação? Ao mesmo tempo, penso que a quarentena não pode servir como desculpa para se alimentar mal o tempo inteiro. É necessário observar suas vontades, sensação de fome e saciedade para não sair em cilada e também manter uma quantidade de alimentos nutritivos em casa. Ir pra cozinha e preparar a própria comida também é de grande ajuda nesse período! Se antes você dizia que não tinha tempo, agora com certeza você tem ao menos um pouco de tempo a mais. Experimente!

Não poderia deixar de mencionar que teremos dias bons e ruins, afinal estamos diante de uma situação que está totalmente fora do nosso controle. Então, está tudo bem se você um dia comeu a mais ou a menos ou se deu preguiça de cozinhar e você fez apenas um sanduíche no almoço. Procure se alimentar bem, mas sem estresse!


Organização para as compras

Estabelecimentos de serviços considerados essenciais como supermercados e farmácias estão abertos, mas não é porque "pode" sair para frequentar esses lugares que você deve sair todos os dias para tal (e eu sei que muita gente está fazendo isso, hein?). É essencial se planejar para fazer as compras. Neste sentido, tome nota de algumas dicas:


- Verifique o que você tem nos armários e na geladeira e faça uma lista para não "perder" muito tempo no supermercado. Organizando o que precisa, você vai direto nos setores e evita comprar a mais! Não é preciso estocar alimentos!

- Quando for comprar frutas e vegetais, opte por alimentos que tenham maior duração como maçã, laranja, berinjela, abobrinha, cenoura, repolho e vagem. Assim, você não precisa se ausentar com frequência para comprar novamente. 

- Tenha sempre alimentos não perecíveis como arroz (branco, integral, 7 grãos...), feijão, lentilha, grão-de-bico, lentilha, quinoa, entre outros.

- Evite produtos industrializados, como macarrão instantâneo (o famoso "miojo"), biscoitos, salgadinhos, temperos prontos, "sucos" de pacote etc.

- Para não precisar ir à padaria com tanta frequência, uma opção é comprar pão de forma, se possível integral. Você pode deixar o pacote na geladeira ou congelar, caso na sua casa não haja tanto consumo. Depois, é só aquecer em uma frigideira, micro-ondas ou na torradeira que ele fica quentinho e pronto pra consumo!

- Organize-se para ir em dias fixos a cada "x" dias. Por exemplo: toda quarta-feira a cada 10 ou 15 dias.


Higienização das compras

Quando chegar do supermercado, lave bem as mãos com água e sabão e prepare-se para higienizar também as compras. Ainda não há evidências de que o coronavírus possa ser transmitido por alimentos, mas a higienização de frutas e vegetais sempre foi recomendada para retirar sujidades e micro-organismos mesmo antes da COVID-19. Veja abaixo como higienizar:


Foto: SaúdeBrasil

A recomendação é que as embalagens também sejam limpas, principalmente após uma publicação no The New England Journal of Medicine (um dos mais renomados do mundo) relatar que o coronavírus tem capacidade de se manter ativo em diferentes superfícies. Para limpá-las (latas, embalagens Tetra Pak, pacotes de feijão ou arroz e até mesmo sacolas de plástico) você pode usar álcool gel 70% com auxílio de um pano, que na sequência deve ser lavado.

Nutricionistas podem te ajudar à distância

O Conselho Federal de Nutricionistas (CFN) liberou até agosto de 2020 o atendimento online para a categoria devido à pandemia. Antes, nutricionistas podiam realizar consultas online apenas para pacientes que já consultaram, ou seja, a primeira consulta deveria ser presencial. Se você deseja um atendimento personalizado, há muitos profissionais atendendo nesta modalidade e todos saem ganhando: você por estar priorizando sua saúde e os nutricionistas que seguem trabalhando (autônomos precisam "se virar nos 30", principalmente agora!), te ajudando com quantidades, combinações adequadas, receitas, dicas e, claro, apoio também nesse momento de crise.


Você tem alguma dúvida sobre alimentação na quarentena? Deixa nos comentários!

Até o próximo post!


Referências:

Brasil, Ministério da Saúde. Das prateleiras à mesa: guia prático de como manusear e utilizar os alimentos de forma adequada [Internet]. 07 de abril de 2020. Disponível em: https://saudebrasil.saude.gov.br/eu-quero-me-alimentar-melhor/das-prateleiras-a-mesa-guia-pratico-de-como-manusear-e-utilizar-os-alimentos-de-forma-adequada - Acesso em 15 de abril de 2020.

van Doremalen, N. et al. Aerosol and surface stability of HCoV-19 (SARS-CoV-2) compared to SARS-CoV-1. N Engl J Med. 2020; DOI: 10.1056/NEJMc2004973.

Strasser, B.; Berger, K.; Fuchs, D. Effects of a caloric restriction weight loss diet on tryptophan metabolism and inflammatory biomarkers in overweight adults. Eur J Nutr. 2014;54(1):101-107.